The Blog

A Nova Esquerda e a Hegemonia Cultural

- 0 Comment. in Blog

Por Agustin Laje, pesquisador e cientista político argentino.

Excerto de O Livro Negro da Nova Esquerda (Editora Danúbio, 2018)

Uma revolução na Rússia nos primórdios do século XX introduzirá, por paradoxal que pareça, um grave problema teórico para o marxismo tradicional e sua filosofia da história. O problema pode resumir-se numa única pergunta: como podia haver uma revolução proletária naquela Rússia que ainda não havia passado por uma revolução democrático-burguesa? Vale dizer que a Rússia czarista, apesar de ter experimentado lutas revolucionárias nos anos de 1905 e 1917, ao contrário da França de 1789, não contava com uma burguesia significativa se esforçando para substituir o sistema monárquico-feudal vigente. Haviam czares, porém não havia uma burguesia que pudesse afetá-los. Segundo o raciocínio marxista seria preciso que a burguesia primeiro fizesse a sua revolução, removendo o czar, antes de ser, ela própria, suplantada pelo proletariado. Portanto, as previsões marxistas entraram em cheque quando a revolução comunista ocorreu “saltando etapas”, pulando de uma situação feudal diretamente para o socialismo, sem passar pela “revolução burguesa”. Um salto do térreo ao segundo andar, antes da construção do primeiro, para seguirmos nas metáforas de construção.

Marx e Engels tinham estabelecido uma ordem progressiva no processo revolucionário; tinham, em uma palavra, uma concepção “etapista” da história (um desenvolvimento por etapas), na qual as distintas classes sociais executavam tarefas que lhes eram “conaturais”. Para eles, as primeiras revoluções do proletariado deveriam acontecer nos países capitalistas mais avançados, em virtude da própria dinâmica das forças materiais que já vimos. A revolução que se deu na Rússia de 1905[1] representava para os espectadores, pois, um desajuste portentoso: o desajuste das etapas da história já preditas por Marx, e o desajuste das tarefas históricas que cada classe devia assumir conforme as leis sociológicas inventadas pelo próprio marxismo. Diante desse problema, dentro da social-democracia russa houve quem afirmasse que o proletariado não deveria participar como força dirigente do processo revolucionário (os “mencheviques”);[2] porém, também sugiram vozes mais radicais que revindicaram a possibilidade de constituir a classe trabalhadora russa como cabeça de uma revolução (os “bolcheviques”).[3]

Anos depois, Antonio Gramsci, célebre filósofo italiano marxista da primeira metade do século XX, fazendo cambalear a rigidez ideológica do marxismo tradicional, escreverá um texto intitulado A revolução contra ‘O Capital’, em que ironiza: “O Capital, de Marx, era na Rússia o livro dos burgueses mais que dos proletários. Era a demonstração crítica da fatal necessidade de que na Rússia se formará uma burguesia, começará uma era capitalista, irá se instaurar uma civilização de tipo ocidental, antes de que o proletariado sequer pudesse pensar em sua ofensiva, em suas reivindicações de classe, em sua revolução. […] Os fatos provocaram a explosão dos esquemas críticos em cujo limite a história da Rússia teria que desenvolver-se, segundo os cânones do materialismo histórico”.[4]

Como vemos, na opinião de Gramsci, nada menos que os fatos russos – eis o paradoxo – fizeram voar em pedaços os esquemas “etapistas” do materialismo histórico do marxismo puro. Porém não devemos adiantar-nos tanto; a teorização de Gramsci é um tanto posterior à revolução – de modo que ele fazia análises baseado em fatos já consumados –, e já chegaremos a ela. A pergunta que devemos fazer-nos agora é: como fizeram então os teóricos que estavam observando estes desajustes para explicar o salto de etapas que se deu na Rússia e, mais ainda, justificar a práxis revolucionária da classe trabalhadora no momento em que a revolução devia ser burguesa?

Do seio da Segunda Internacional Socialista[5] — a qual funcionou entre 1889 e 1923 – se recorrerá a um conceito que virá a suturar a teoria marxista: esse conceito foi o de hegemonia.

A que se referia a hegemonia no início? Como já vimos, as classes sociais têm “tarefas históricas” bem precisas: a burguesia deve acabar com a sociedade feudal, e o proletariado deve acabar, por sua vez, com a sociedade burguesa (capitalista). A hegemonia será o conceito utilizado pelo teórico Gueorgui Plejanov – um dos fundadores da Segunda Internacional – para descrever e justificar o fato de que na Rússia a classe proletária assumiu a tarefa burguesa de sepultar a sociedade feudal. Com efeito, o estado de desenvolvimento econômico russo estava tão pouco maduro que uma débil burguesia não podia cumprir com suas obrigações históricas – fazer a revolução contra o feudalismo czarista – e, por isso, a classe trabalhadora deveria hegemonizar, quer dizer, assumir tarefas que não eram próprias de sua natureza de classe – que consiste em fazer a revolução contra o capitalismo burguês.

Este é o marco do surgimento do conceito de hegemonia que, em sua origem, não pôde despojar-se do determinismo econômico do marxismo tradicional. Por quê? Porque continuava-se concebendo as classes sociais como grupos com tarefas históricas bem definidas, “naturais”, e hegemonia é apenas o nome dado ao fato excepcional da assunção por parte de uma classe social de uma tarefa que em teoria não lhe seria própria. No caso russo, a tarefa de fazer uma revolução proletária contra um regime feudal.

[1] Mobilização de operários e camponeses contra o regime que não conseguiu derrubar o Czar, mas conseguiu que a Rússia se transformasse em uma monarquia constitucional.

[2] Eram a facção moderada do Partido Operário Socialdemocrata da Rússia. Foram muito ativos na revolução de 1905, mas ao constatar seu fracasso, modificaram sua estratégia e defenderam, em consequência, a liquidação progressiva do czarismo mediante uma “revolução burguesa”.

[3] Eram a facção mais radicalizada do Partido Operário Socialdemocrata da Rússia. Após a derrota de 1905 mantiveram a estratégia de uma revolução operária comunista, que saltasse a etapa burguesa. Esta facção foi liderada por Lenin.

[4] Gramsci, Antonio. Para la reforma moral e intelectual. Madrid, Libros de la Catarata, 1998, pp. 35-36.

[5] O socialismo de todo o mundo coordenou sua estratégia através de que se chamou “Internacional Socialista”. Houveram no total quatro Internacionais, que foram se sucedendo por conta de conflitos estratégicos, políticos e ideológicos internos. No caso da Segunda Internacional, ela funcionou entre 1889 e 1923. Seu primeiro congresso foi na França, onde se constituiu como “Federação de Partidos Socialdemocratas” (a Primeira Internacional havia tentado formar um partido único mundial). Ver Sagra, Alicia. La internacional. Un permanente combate contra el sectarismo y el oportunismo. Buenos Aires, Deeksha Ediciones, 2007.

-->