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O pós-marxismo de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe

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Por Agustín Laje.

Contemporâneos a nós, o argentino Ernesto Laclau e sua mulher Chantal Mouffe geraram outro salto importantíssimo na teoria marxista. Este salto foi tão importante que o mundo acadêmico lhes reputa um papel indiscutível como referências do chamado “pós-marxismo”,[1] uma corrente teórica muito recente cuja característica fundamental é a proposta de revisar o marxismo de modo a adequá-lo, teórica e estrategicamente, ao novo mundo que nasceu do fracasso do “socialismo real” da União Soviética.

No entanto, Ernesto Laclau não ascendeu somente no mundo acadêmico, mas sua imagem também chegou ao mundo da política, que reconheceu nele um papel filosófico importante no projeto do “socialismo do século XXI” em geral, e no caso do regime kirchnerista em particular. Praticamente não existia meio de comunicação nacional e internacional que, ao mencioná-lo, não tenha mencionado o papel do “filósofo do kirchnerismo”.[2] Com sua morte em abril de 2014, Cristina Kircher pronunciou um discurso no qual disse: “Laclau era um filósofo muito controvertido, um pensador com três virtudes. A primeira, pensar, algo não muito habitual nos tempos que correm. A segunda, fazê-lo com inteligência; e a terceira, fazê-lo em aberta contradição com as usinas culturais dos grandes centros de poder”. Como se a nova esquerda não fosse um deles…

Concentremo-nos, porém, em seu aporte teórico, que é o que pretendemos destrinchar neste capítulo. E comecemos dizendo que o mundo no qual Laclau vive é muito distinto do mundo de Marx e mesmo do mundo de Gramsci. O que Laclau vê quando escreve com Chantal Mouffe sua obra Hegemonia e Estratégia Socialista, publicada em 1985, é um mundo onde o capitalismo expandiu-se formidavelmente e, longe de agravar os seus conflitos de classe, obteve cada vez melhores condições de existência para o proletariado,[3] em contraste com a uma iminente queda do bloco comunista; um mundo onde a democracia pluralista também expandiu-se desmesuradamente e fez aflorar novos pontos de conflito político que não têm sua raiz em fundamentos econômicos; e onde o Estado de bem-estar se encontra em uma brutal crise e, em seu lugar, vêem surgir com todas as suas forças o projeto do “liberalismo neo-conservador”.

O trabalho de Laclau e Mouffe revisa e “descontrói” (desmantela e substitui) as teorias do marxismo tradicional, buscando desmontar o economicismo[4] para propor uma nova teoria e uma nova estratégia para a esquerda, baseadas na idéia de hegemonia. Nisto se resume, precisamente, os esforços de Hegemonia e estratégia socialista, um das obras mais importantes de nossa esquerda renascida.

O pós-marxismo de Laclau e Mouffe tem como centro a supressão do conceito de “classe social” como elemento teórico relevante para a esquerda. Este é o passo crucial que ambos os pensadores dão em comparação a Gramsci, em quem, ademais, baseiam a maior parte de sua teoria. O proletariado já não é o sujeito revolucionário privilegiado em nenhum sentido possível; a classe trabalhadora em Laclau não tem sequer privilégios em uma estratégia hegemônica como na teoria gramsciana. Porém, para além disso, tampouco há sentido procurar outro sujeito privilegiado, como aconteceu na década de 60 na qual se discutiu, a partir especialmente dos teóricos da Escola de Frankfurt, se o privilégio da história passava pelos jovens, pelas mulheres, etc.[5] Contra a intenção desesperada de descobrir novos sujeitos para a revolução anticapitalista, Laclau e Mouffe acentuam a construção discursiva dos sujeitos. O que significa isso? Significa, pois, que os discursos ideológicos podem dar origem a novos agentes da revolução (o discurso tem caráter performativo, dirá o filósofo da linguagem John Austin). Simplificando um pouco: é preciso fabricar e difundir relatos que gerem conflitos úteis para a causa da esquerda.

[1] Ver por exemplo Meiksins Wood, Ellen. ¿Una política sin clases? El post-marxismo y su legado. Buenos Aires, Ediciones RyR, 2013. Também ver Howart, David. “Teoría del discurso” IN: Marsh y Stoker. Teoría y método de la Ciencia Política. Dado curioso: na popular enciclopedia virtual Wikipedia o verbete do “pós-marxis­mo” menciona Laclau e Mouffe como pais desta nova corrente teórica e na “bibliografía”, de seis títulos, quatro correspondem a Laclau, ou seu título menciona seu nome de forma explícita.

[2] Eis aqui alguns exemplos de manchetes por ocasião de sua morte: “Ernesto Laclau, o ideólogo da Argentina dividida”, na Revista Noticias, Argentina, 13 de abril de 2014. “Morreu Ernesto Laclau, proeminente intelectual do kirchnerismo”, no jornal La Nación, Argentina, 13 de abril de 2014. “Morre Ernesto Laclau, sussurro intelectual de Cristina Kirchner”, jornal El Mundo, Espanha, 14 de abril de 2014. “Morreu Ernesto Laclau, o pensador favorito da Presidenta”, diário Clarín, Argentina, 13 de Abril de 2014. “Morre Ernesto Laclau, proeminente intelectual do kirchnerismo”, El País, Espanha, 14 de Abril de 2014. “Morreu Ernesto Laclau, o filósofo preferido de Cristina”, jornal La Nueva Provincia, Argentina, 14 de Abril de 2014.

[3] Laclau e Mouffe advertem que “…ao passo que o capitalismo avançou o modelo salarial se generalizou, as classes dos trabalhadores industriais não fizeram senão diminuir em número e significado”. Hegemonía… Cit., p. 119. Além disso: “É portanto impossível falar hoje em dia de uma homogeneidade da classe trabalhadora, e menos ainda referir-la a um mecanismo que esteja inscrito na lógica da acumulação capitalista”. Hegemonía y estrategia socialista. Cit., p. 121.

[4] “Nem o campo da economía é um espaço autorregulado e submetido a leis endógenas; nem há um princípio constitutivo dos agentes sociais que possa ser fixado no último núcleo de classe; nem os posicionamentos de classe são a sede necessária de interesses históricos”. Laclau, Ernesto. Mouffe, Chantal. Hegemonía y estrategia socialista. Cit., p. 124.

[5] “Não há posição privilegiada única a partir da qual se seguiria uma continuidade uniforme de efeitos que acabariam por transformar a sociedade em seu conjunto”. Laclau, Ernesto. Mouffe, Chantal. Hegemonía y estrategia socialista. Cit., p. 213.

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